Em resposta enviada nesta segunda-feira (20) ao Supremo Tribunal Federal, Valdemar Costa Neto negou ter cota, reserva, titularidade ou qualquer mecanismo jurídico de alocação de emendas parlamentares na condição de presidente do PL. Segundo a defesa, a atuação dele se limita a discussões internas do partido e à formulação de sugestões políticas, que depois passariam pelos filtros independentes do processo legislativo — ele não apresentaria emendas, não faria indicação formal nem teria qualquer papel na execução dos recursos.135

A versão contrasta com o que o próprio Valdemar afirmou dias antes. Em entrevistas na semana passada, ele admitiu que dirigentes partidários interferem na destinação das emendas, disse que sempre teve cuidado na administração dessas verbas e relatou que prefeitos o procuram para tratar da aplicação do dinheiro. Foi essa admissão que levou o ministro Flávio Dino a intimar os presidentes dos 21 partidos com representação no Congresso, com prazo de dez dias para explicar se mantêm cotas, reservas ou outros mecanismos de controle sobre os recursos.15

Também nesta segunda, Dino determinou o envio das respostas de Valdemar e de Gilberto Kassab, presidente do PSD, à Polícia Federal, para que sejam anexadas às investigações sobre a distribuição das emendas. Kassab negou ter indicado emendas ou participado de decisões sobre a destinação de recursos e sustentou que a direção do partido jamais exerceu influência sobre essas verbas. O ministro pediu ainda manifestação do presidente da Câmara, Hugo Motta. A PF já havia identificado o que classificou como uma cota parlamentar de Valdemar sobre emendas de comissão, e Dino chegou a bloquear R$ 119 milhões ligados ao caso.24

A mudança de versão não é detalhe: em entrevista, a franqueza custa pouco; em documento oficial anexado a inquérito, cada palavra vira peça de investigação. O recuo sugere que o presidente do PL mediu o risco jurídico da própria fala — mas a PF agora tem as duas versões para cotejar. O caso testa até onde o STF conseguirá expor o mecanismo informal que transformou as emendas na principal moeda política do Congresso, num ano eleitoral em que o PL disputa a Presidência.14