Dois dias depois de Donald Trump anunciar que os Estados Unidos passariam a controlar mais de 65 bilhões de barris de petróleo venezuelano, o governo de Caracas apresentou sua própria versão do acordo. Em pronunciamento na noite de sábado (29) pela emissora estatal VTV, a presidente interina Delcy Rodríguez disse que o projeto bilateral tem prazo de 25 anos, abrange 17 campos considerados estratégicos e mira uma produção inicial acima de 1,5 milhão de barris por dia. Segundo ela, a Venezuela preserva a propriedade e a soberania sobre as reservas e recorre a capital, tecnologia e capacidade operacional americanos para reerguer uma indústria desgastada por anos de sanções.13
Pela conta do governo venezuelano, o país receberia cerca de US$ 19 por barril produzido e vendido, o que, com o petróleo a US$ 65, somaria aproximadamente US$ 209 bilhões ao longo do contrato. Além dos 17 campos, Rodríguez citou oito blocos novos na Faixa do Orinoco e mencionou Chevron, Shell e BP entre as empresas que participariam. A Chevron, única petroleira americana ainda ativa no país, deve migrar suas joint ventures para o novo arranjo; Chevron e Exxon Mobil não comentaram.123
A leitura de Washington é outra. Trump sustenta que os EUA ficarão com 55% da produção efetiva, somando participação acionária a direitos de compra a preço de custo, por meio de uma empresa formada com um operador privado, e promete quase US$ 100 bilhões em investimento e queda dos combustíveis nos postos americanos. O acordo foi negociado por Marco Rubio, Pete Hegseth e Rodríguez, que assumiu o poder após a queda de Nicolás Maduro em uma operação militar americana no início do ano.24
O que ainda falta é justamente o que define quem ganha. Nenhum dos lados publicou o texto do contrato, o nome do operador privado, quem paga a recuperação da infraestrutura sucateada nem como os 55% reivindicados por Trump se dividem entre propriedade e direito de compra. Os US$ 209 bilhões da Venezuela pressupõem que a meta de 1,5 milhão de barris seja atingida e sustentada, algo que o país não faz há anos. As duas narrativas, 'controle majoritário' e 'soberania preservada', podem descrever o mesmo papel; sem o documento, é impossível saber.24
A reação interna já apareceu: dezenas de grupos chavistas protestaram no centro de Caracas no sábado, e o economista Ricardo Hausmann, de Harvard, questionou se uma presidente interina tem legitimidade para assumir compromissos de 25 anos. Para o mercado, o dado relevante é a promessa de reinjetar 1,5 milhão de barris diários na oferta global, uma quantidade capaz de pesar sobre os preços, se e quando sair do papel.12