Uma comitiva com três ministros desembarcou em Dourados (MS) na manhã deste sábado (31) para ouvir comunidades Guarani e Kaiowá que relatam ataques e intimidações desde o segundo turno. Eloy Terena (Povos Indígenas) e Janine Mello (Direitos Humanos) seguem para as aldeias Taquapery, em Coronel Sapucaia, e Sassoró, em Tacuru, na faixa de fronteira com o Paraguai. O ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, fica em Dourados em reunião com as forças de segurança. A viagem foi determinada por Lula, e a deputada Sônia Guajajara (PSOL-SP) acompanha o grupo. Uma coletiva em Dourados deve apresentar os encaminhamentos ainda hoje.126

Os relatos se acumulam desde 24 de outubro. Em Tacuru, um áudio atribuído a um servidor da prefeitura sugere colocar veneno na água que abastece uma aldeia, associando a violência ao voto indígena em Lula. Parte da comunidade, que depende de caminhões-pipa, deixou de consumir a água por medo. A prefeitura afastou temporariamente o funcionário e abriu procedimento administrativo, e o Ministério Público Federal deu 24 horas ao município para confirmar a autenticidade da gravação e identificar o autor. Na quinta (29), a casa de uma rezadeira de 90 anos na aldeia Jaguapiré, também em Tacuru, foi incendiada, com destruição de objetos rituais; a comunidade trata o caso como criminoso.32

Os números ainda não fecham. O Conselho Indigenista Missionário fala em ao menos cinco assassinatos de indígenas sob investigação no estado desde o sábado da eleição. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil contabiliza mais de 30 ocorrências ligadas ao período eleitoral, entre ameaças, agressões e atropelamentos, e admite que nem todas foram confirmadas. Em Naviraí, o MPF concluiu que a versão de homicídios por motivação política era boato montado com imagens fora de contexto. A Anistia Internacional cobrou resposta coordenada das autoridades.321

No plano federal, o Ministério dos Povos Indígenas e a Funai acionaram a Polícia Federal, que abriu inquéritos sobre parte das ocorrências. Foi criada uma força-tarefa com as pastas dos Povos Indígenas, Direitos Humanos e Igualdade Racial para centralizar denúncias, e o Ministério da Justiça pediu às corregedorias das polícias estaduais e do DF os registros de violência política. A Força Nacional patrulha as comunidades Sassoró, Taquapery e Limão Verde.426

A presença da Força Nacional em aldeias sul-mato-grossenses, porém, não nasceu desta crise. Uma portaria assinada em 22 de outubro, antes do segundo turno, e publicada no Diário Oficial da União em 26 de outubro renovou por 90 dias a atuação da tropa em apoio à Funai, sob coordenação da PF. Os agentes estão nas aldeias do estado desde dezembro de 2023, com renovações sucessivas. A novidade é o direcionamento do patrulhamento às três comunidades que concentram as denúncias.52

A visita tem peso simbólico, mas o que altera a situação concreta são os inquéritos da PF e a garantia do abastecimento de água, que em Tacuru virou questão de serviço essencial. Falta saber se a coletiva deste sábado trará efetivo, prazos ou medidas além das anunciadas na sexta.14