Dezenas de milhares de marroquinos entraram em Ceuta, enclave espanhol no norte da África, por terra e a nado no intervalo de 24 horas entre quinta (30) e sexta (31). As estimativas vão de 49 mil, segundo contagem citada pela Time, a cerca de 60 mil, número reportado pela Al Jazeera. Ao menos 34 pessoas morreram, a maioria por afogamento, e parte delas num tumulto junto ao molhe da praia de Tarajal. O Ministério do Interior espanhol afirmou que cerca de 25 mil já haviam sido devolvidos ao Marrocos até esta sexta.13

O primeiro-ministro Pedro Sánchez viajou a Ceuta na sexta e classificou as travessias como violação da integridade territorial da Espanha. Na véspera, Madri e Rabat haviam anunciado um acordo para acelerar as devoluções, sem cronograma ou números detalhados, e o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, também se deslocou ao enclave. O governo central descartou decretar emergência nacional, embora tenha prometido reforços; a Euronews reportou na quinta a mobilização de militares para apoiar as forças de segurança locais, sobrecarregadas pela escala das chegadas.12

O estopim aponta para dentro do próprio sistema espanhol: em 29 de junho, o Supremo do país proibiu a devolução sumária, sem devido processo, de quem chega por mar — decisão que se espalhou por redes sociais marroquinas e funcionou como convite involuntário à travessia. O terreno social ajudou: o desemprego entre jovens no Marrocos está em 37,2%, e as chegadas por terra a Ceuta já haviam crescido 164% no início de 2026 na comparação com 2025. Rabat afirma que a crise não foi desejada pelo reino, atribui as travessias a redes de tráfico de pessoas, pediu aos cidadãos que retornem e chegou a usar caminhões com canhões d'água na fronteira.13

A onda expôs de imediato a arquitetura de Schengen. Ursula von der Leyen, chefe da Comissão Europeia, classificou a situação como inaceitável e exigiu o fim das travessias; a França anunciou reforço de controles na fronteira com a Espanha, e a Itália ameaçou suspender a livre circulação com o vizinho ibérico. A comparação com maio de 2021 — quando cerca de 10 mil pessoas entraram em Ceuta em dois dias e o episódio já foi tratado como crise de Estado entre Madri e Rabat — dá a medida da escala atual e do problema político que uma decisão judicial doméstica criou para a Espanha e para Bruxelas.123