Emmanuel Macron falou à nação por cerca de dez minutos na noite deste domingo (18), a partir das 20h de Paris (15h em Brasília), e a única medida com efeito imediato foi a autorização para que os prefeitos regionais proíbam concentrações nos próximos dias, a pretexto de proteger as cidades. O presidente pediu ao ministro do Interior, Laurent Nuñez, respostas sobre inteligência e antecipação do policiamento e prometeu transparência sobre a estratégia de ordem pública. Não houve anúncio sobre custo de vida ou serviços públicos, a pauta original dos atos. O balanço mais recente do ministério aponta 2.397 detidos no sábado e 997 policiais e gendarmes feridos, sete em estado grave.123

Enquanto o presidente falava, a capital voltava a ter confronto. Uma manifestação não autorizada na Place de la République terminou em gás lacrimogêneo, e grupos atacaram a polícia com garrafas perto do Boulevard Sébastopol e na região de Les Halles e Châtelet. A loja de departamentos BHV Marais, já saqueada no sábado, foi invadida de novo, assim como um supermercado Franprix. A AFP registrou tensões também em Lyon, sem detalhar. Em Limoges, cerca de 7 mil pessoas se reuniram no domingo diante da prefeitura incendiada na véspera.32

O prédio da prefeitura de Limoges, inaugurado em 1883 e inspirado no Hôtel de Ville de Paris, ficou praticamente destruído: o fogo tomou uma ala e o telhado, e a torre do sino desabou durante a noite. Em Bordeaux, a residência do representante do Estado foi saqueada e exigiu intervenção da tropa de elite RAID. Entre os manifestantes, dois adolescentes de 17 anos ficaram mutilados: uma perdeu um olho em Mulhouse e outro teve a mão arrancada por granada em Saint-Étienne, casos agora na inspetoria da polícia (IGPN). A morte em Paris, por parada cardiorrespiratória, está sob investigação do Ministério Público.41

A reação política foi dura em todas as direções. Bruno Retailleau, dos Republicanos, pediu estado de emergência imediato e não foi atendido. Jordan Bardella, da Reunião Nacional, e Manuel Bompard, da França Insubmissa, classificaram o discurso como lamentável e irresponsável, e dirigentes de oposição exigem a saída de Nuñez. A presidente da Assembleia, Yaël Braun-Pivet, anunciou uma comissão parlamentar de inquérito sobre a violência e o policiamento, e o primeiro-ministro vai convocar partidos, sindicatos e prefeitos. Macron mantém a viagem de três dias ao Golfo a partir desta segunda, a seis meses da eleição presidencial. Na leitura deste portal, o governo escolheu responder com ordem pública e procedimento, deixando sem resposta a demanda econômica que, segundo os organizadores, levou 800 mil pessoas às ruas.123