A Polícia Federal descreveu, em relatório que veio a público nesta quarta (21), um compartimento escondido nos hangares 36 e 37 da área executiva do Aeroporto Internacional de Brasília, ocupados por empresas de aviação do advogado Willer Tomaz. A busca ocorreu em 7 de agosto, dentro da Operação Sem Desconto, que apura lavagem de dinheiro ligada aos descontos indevidos em benefícios do INSS, com autorização do ministro André Mendonça, do STF. O documento foi obtido pelo Estadão e confirmado por O Globo.134
Segundo a PF, a equipe já havia encerrado a diligência quando recebeu uma denúncia anônima sobre uma parede falsa. De volta ao hangar no mesmo dia, os agentes localizaram uma porta metálica atrás de uma estrutura de madeira e, depois dela, um espaço com divisórias internas, malas vazias e uma máquina de contar cédulas. Não havia dinheiro. Era o segundo equipamento do tipo recolhido no caso; o primeiro saiu do escritório do advogado. Para os investigadores, a ausência de valores no momento da inspeção não anula os indícios de que a sala servia para guardar e movimentar dinheiro em espécie fora do sistema bancário, e há a hipótese de retirada antes do retorno da equipe.124
Na mesma ação, a PF apreendeu quatro aeronaves: um helicóptero Robinson R66, um Helibras AS 350 B2 e dois jatos Cessna, que permaneceram no hangar sob custódia de uma funcionária. Listas de passageiros e diários de bordo foram copiados para identificar quem voou nelas nos últimos anos e verificar se transportaram dinheiro vivo. As empresas também prestavam serviço de táxi aéreo, e agentes recolheram gravações de câmeras de uma propriedade rural de Tomaz em Planaltina de Goiás.124
A defesa de Tomaz nega irregularidade. Afirma que a sala-cofre e as máquinas integram a estrutura montada para atender empresas de transporte de valores, clientes das companhias de aviação, e classifica como fantasiosa a hipótese de que o espaço abrigasse recursos não declarados. Ressalta que nenhuma quantia foi encontrada.134
O advogado é amigo de Flávio Biroliro, candidato à Presidência, que não foi alvo dessa busca. Flávio responde a inquérito separado no STF, relatado por Alexandre de Moraes, sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas ligadas à relação com Tomaz e a plataformas de apostas. Os dois reconhecem a amizade e negam negócios irregulares.13
O que existe de concreto até aqui é um relatório policial com a descrição de uma estrutura e de equipamentos, sem dinheiro apreendido e sem acusação formal. A leitura da PF e a versão da defesa partem dos mesmos objetos; o que vai separá-las são os registros de voo, os contratos com transportadoras de valores e o cruzamento com as demais frentes de investigação. Na reta final da eleição presidencial, cada peça nova do caso ganha peso político que o material em si ainda não sustenta.12