A Polícia Federal atribui ao ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) um papel direto na tentativa de compra do Banco Master pelo BRB, banco controlado pelo governo local. Relatórios enviados ao Supremo Tribunal Federal em 28 de setembro, e que tiveram o sigilo retirado nesta sexta (9), descrevem uma reunião em Zurique, na Suíça, em 23 de janeiro de 2025, entre Ibaneis, o banqueiro Daniel Vorcaro, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e uma quarta pessoa identificada apenas como Leonardo. Para os investigadores, aquele encontro marcou o início das tratativas.123

As conclusões se apoiam em mensagens extraídas dos celulares de Costa e de Vorcaro, apreendidos na Operação Compliance Zero. Em 20 de janeiro de 2025, três dias antes do encontro, Costa avisou Vorcaro de que o governador havia pedido a reunião. No dia 26, o banqueiro repassou a Costa uma pergunta de um jornalista sobre uma possível parceria entre os bancos, e o então presidente do BRB manifestou receio de que o vazamento tivesse partido de Ibaneis ou de Leonardo.23

Segundo a PF, Ibaneis, na condição de acionista controlador, não se limitou às atribuições institucionais do cargo. O relatório descreve atuação em quatro frentes: definição dos valores de aumento de capital, desenho do plano de expansão do banco, aval a decisões operacionais consideradas críticas e articulação com agentes privados. Decisões estratégicas, afirmam os investigadores, chegavam ao governador antes de passar pelos órgãos formais de governança, um arranjo que a polícia classifica como captura institucional.23

A cronologia montada pela PF começa em outubro de 2024, quando o BRB foi ao mercado para captar até R$ 1 bilhão e levou ao conselho um aumento de capital de R$ 750 milhões. Para os investigadores, a capitalização preparava a aquisição, cujas negociações começaram exatos três meses depois. Entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, o BRB comprou R$ 9,52 bilhões em carteiras de crédito emitidas pelo Master; relatórios anteriores estimavam que o aporte poderia chegar a R$ 16,7 bilhões em um ano. A PF também aponta que o Master entrou indiretamente no capital do BRB por meio dos fundos Borneo, Verbier e Delta, estruturados para esconder o beneficiário final.23

A defesa de Ibaneis disse ter recebido o relatório com tranquilidade e sustenta que ele não pressionou ninguém nem interferiu nas operações do BRB. Os advogados destacam que o ex-governador não aparece como interlocutor direto em nenhuma mensagem com Vorcaro, é citado apenas quatro vezes pela PF e que Costa tinha autonomia para conduzir a negociação. Vorcaro e Costa estão presos e não se manifestaram. Ibaneis não foi denunciado. A leitura editorial é que o relatório devolve ao STF a decisão sobre o próximo passo em relação ao ex-governador, que até aqui atribuía toda a condução do negócio ao antigo presidente do banco.23