A Polícia Federal detalhou, em laudo técnico-pericial divulgado nesta segunda-feira (14), como funcionários do Banco Master fabricaram em série os documentos que davam aparência de legalidade a cessões fictícias de crédito consignado atribuídas à Tirreno Consultoria. O montante dessas operações chega a R$ 7,15 bilhões, e as carteiras acabaram repassadas ao Banco de Brasília (BRB), que recebeu ativos sem lastro real. O material veio a público na esteira da derrubada do sigilo de mais de 50 processos do caso Master no STF.135

Segundo a perícia, o ponto de partida eram dados verdadeiros de clientes antigos, como nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe, extraídos dos sistemas internos do banco e organizados em planilhas. Essas planilhas alimentavam a ferramenta de mala direta do Word, que gerou 2.700 procurações de uma só vez em 20 de junho de 2025. Programas escritos em C# extraíam páginas específicas de PDFs, sobretudo as de assinatura, e a PF localizou uma pasta com 1.833 arquivos contendo apenas páginas assinadas de termos de consentimento. O PDF24 reunia as peças em dossiês por operação, e o Adobe Acrobat servia para aplicar certificados digitais e mexer nos metadados.123

A cronologia embutida nos próprios arquivos traiu o esquema. Uma cédula de crédito bancário datada de 21 de janeiro de 2025 só recebeu assinatura digital em 20 de junho daquele ano, às 14h02. O termo de consentimento de um cliente, criado em 24 de fevereiro de 2023, foi alterado em 3 de julho de 2025. Em mensagem interna, o então gerente de operações do back office, Allan da Silva Machado, pedia que a data fosse excluída dos documentos. A PF também identificou tentativas de editar comprovantes de transferência para esconder números de contrato e o histórico das transações.12

A análise se apoia em uma apresentação de 30 slides sobre investigações internas do banco, encontrada em um HD corporativo, que cobre o período de 18 de junho a 24 de outubro de 2025. Entre os nomes citados estão Daniel Vorcaro, dono do Master, que teria pedido um kit de 300 operações com assinatura digital, o superintendente executivo de tesouraria Alberto Felix de Oliveira Neto, o coordenador Fabrizio Pereira Alencar e integrantes da equipe de tecnologia da informação.324

Para a PF, as operações não tinham liquidação financeira real: os valores existiam apenas como lançamentos escriturais em contas gerenciais internas, montados para simular regularidade antes do repasse ao BRB. O laudo é peça de instrução, não juízo de culpa, e os investigados ainda serão ouvidos nas fases seguintes. A leitura editorial é que a perícia muda o patamar do caso: sai do campo da suspeita contábil e entra no da prova material, com rastro digital que dificilmente se explica por erro operacional.421