A Polícia Federal encerrou nesta quarta-feira (7) a apuração preliminar sobre uma suposta interferência do governo dos Estados Unidos na eleição presidencial brasileira. A decisão, revelada pela coluna de Malu Gaspar, em O Globo, e confirmada pelo Metrópoles, baseou-se na ausência de indícios mínimos de crime ligados a uma atuação de Washington no processo eleitoral. O caso nunca chegou a ganhar portaria de inquérito: morreu na fase de averiguação, dentro da Diretoria de Inteligência. Até o fechamento desta nota, a PF não havia publicado comunicado oficial sobre o arquivamento.125
A origem é uma reportagem do britânico The Guardian, publicada em 30 de setembro, segundo a qual o Departamento de Estado reservou cerca de US$ 1 milhão do seu Fundo de Direitos Humanos e Democracia para um projeto de combate ao lawfare e à censura no Brasil, voltado a grupos da sociedade civil críticos ao STF. O jornal não identificou beneficiários, e o governo americano disse que os programas ainda estavam em deliberação. Em 1º de outubro, a Advocacia-Geral da União enviou notícia-crime à PF e à Procuradoria-Geral da República pedindo a identificação dos responsáveis e dos destinatários no país, com base na proibição legal de financiamento estrangeiro a partidos.23
No domingo (4), dia do primeiro turno, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, anunciou que a representação da AGU tinha sido encaminhada à Diretoria de Inteligência no sábado (3) e que uma investigação estava em curso, embora sem inquérito formal. Na mesma entrevista, ele afirmou não haver risco concreto contra as embaixadas dos EUA e da Austrália, que suspenderam o atendimento ao público em 2 de outubro, e disse que os dois assuntos corriam em procedimentos separados.3
A PGR já havia dado resposta semelhante. Em julho, o gabinete de Paulo Gonet arquivou uma representação anterior da AGU sobre o mesmo tema, com o argumento de que o pedido apenas reproduzia o noticiário e não comprovava o repasse nem sua ligação com atos praticados no Brasil. O órgão deixou aberta a possibilidade de agir se surgissem indícios de ilícito em território nacional. O novo pedido, de 1º de outubro, ainda não tinha resposta no domingo.4
Na prática, o arquivamento retira de cena, a 18 dias do segundo turno, a única frente policial aberta no Brasil sobre o tema. A verba americana, se confirmada, continua sendo um ato do governo Trump e um problema diplomático, não um crime apurável pela PF sem indícios de recebimento no país. Chama atenção a velocidade: três dias entre o anúncio público da apuração e seu encerramento. A leitura mais plausível é que a corporação preferiu não manter em aberto, no meio da campanha, uma investigação cujo alvo era o governo de outro país e cuja prova dependia de documentos fora do seu alcance.12