A Polícia Federal apreendeu na casa do senador Ciro Nogueira (PP-PI), no Lago Sul, em Brasília, um manuscrito com o título “Câmara” que reúne primeiros nomes de parlamentares acompanhados de números. O papel estava entre documentos deixados na churrasqueira da residência e foi recolhido em 7 de maio de 2026, durante a quinta fase da Operação Compliance Zero, que apura a relação entre políticos e o Banco Master, de Daniel Vorcaro. O achado só se tornou público nesta sexta e sábado, depois que o presidente do STF, Edson Fachin, determinou em 11 de setembro a retirada do sigilo dos autos.123

Segundo o relatório da PF, a lista traz Arthur com o número 40; Hugo, Elmar, Luizinho, Adolfo e Isnaldo com 10; e Diego, Altineu e Netinho com 5. Os investigadores apontam como prováveis correspondências os deputados Arthur Lira, Hugo Motta, Elmar Nascimento, Doutor Luizinho, Adolfo Viana e Isnaldo Bulhões, entre eles o atual presidente da Câmara e seu antecessor. A própria PF ressalva que os números podem indicar valores, mas que o significado da anotação ainda carece de esclarecimento e não foi objeto de análise mais detalhada no documento que lista o material apreendido.124

Um detalhe pesa no contexto: uma funcionária da casa relatou aos agentes que o próprio senador havia lhe entregado os papéis com a orientação de queimá-los, sob a justificativa de que seriam antigos e sem serventia. A incineração não ocorreu por falta de tempo. A investigação principal contra Ciro Nogueira, presidente nacional do PP e ex-ministro da Casa Civil, busca saber se ele recebeu vantagens indevidas de Vorcaro, como uma mesada e serviços de luxo, em troca de atuação favorável aos interesses do Master no Congresso.234

As reações foram contidas. A assessoria de Ciro Nogueira não quis comentar o achado. Arthur Lira afirmou desconhecer as anotações, Hugo Motta preferiu não se manifestar, e Elmar Nascimento repudiou a associação e classificou o documento como apócrifo. Doutor Luizinho e Isnaldo Bulhões não responderam até a publicação das reportagens. Vale a cautela: até aqui há um papel sem autoria confirmada e sem contexto, não uma acusação formal contra os deputados citados. O que existe de concreto é a ordem de destruição relatada pela funcionária e a decisão da PF de aprofundar a apuração sobre o que os números representam.234