O sistema das Nações Unidas perdeu 10.772 postos de trabalho em um ano. O quadro total caiu de 130.948 funcionários em 2024 para 120.176 em 2025, recuo de cerca de 8%, segundo levantamento do Conselho de Chefes Executivos da ONU (CEB) reunido pelo g1 e detalhado pela consultoria ReformWorks. A redução alcançou 21 dos 41 organismos do sistema. A Organização Internacional para as Migrações eliminou 4.471 vagas (29,5% do quadro), o ACNUR cortou 2.932 (22%) e o Unicef, 1.614 (10,5%). Para 2026, o orçamento regular ficou em US$ 3,45 bilhões, e cerca de 2.900 cargos adicionais foram extintos em 1º de janeiro.1246
A origem do aperto é o calote americano. Os Estados Unidos respondem por 22% do orçamento regular e por 26,15% das operações de paz. Em setembro, Washington pagou US$ 827 milhões, sendo US$ 725 milhões para o orçamento regular e US$ 102 milhões para missões de paz, mas ainda deve cerca de US$ 4,2 bilhões. Funcionários da ONU atribuem aos americanos 95% dos atrasados do orçamento regular. O Departamento de Estado afirmou ao g1 que novos repasses dependem de avanços comprovados nas reformas exigidas por Donald Trump, condição que António Guterres rejeita. Até 1º de outubro, 143 dos 193 países-membros haviam quitado a cota de 2026.236
No Brasil, o impacto já chegou ao balcão. Até o fim de agosto, a operação do ACNUR no país havia recebido apenas 22% dos recursos previstos para 2026, segundo o representante Davide Torzilli. Em 2025, os cortes atingiram 40% da força de trabalho da agência e de organizações parceiras. Alguns refugiados perderam acesso a programas de abrigo, alimentação e itens básicos, e os serviços de registro e documentação foram reduzidos, enquanto entre 400 e 500 pessoas continuam entrando diariamente por Pacaraima e Bonfim, em Roraima, dentro da Operação Acolhida.125
No plano global, o ACNUR projeta orçamento de US$ 7,14 bilhões para 2027, o menor em dez anos, contra US$ 10,6 bilhões em 2025. A agência fechou escritórios em 140 localidades, encerrou operações em 15 países e estima que 8,3 milhões de pessoas possam ficar sem assistência essencial em 2026. O porta-voz Stéphane Dujarric descreveu ao g1 um cenário de menos alimentos e vacinas distribuídos e de programas para refugiados encerrados.235
Vale separar o dado da novidade. Os 10 mil postos a menos retratam 2025, não um anúncio desta sexta, e o CEB ainda não publicou o relatório oficial com data-base de 31 de dezembro de 2025. O que muda é a confirmação de que a sangria segue em 2026 e de que a dívida americana virou moeda de barganha. Guterres deixa o cargo em 31 de dezembro, e o sucessor herdará a escolha entre cortar missões de paz e cortar assistência humanitária, inclusive na fronteira norte do Brasil.346