O calor armazenado nos oceanos chegou em 2025 ao maior nível já medido. A décima edição do Ocean State Report, divulgada nesta quarta-feira (30) pelo serviço marinho do Copernicus, o programa de observação da Terra da União Europeia, calcula que o mar absorveu 23 zettajoules adicionais no ano passado, algo como 40 vezes toda a energia consumida pela humanidade no mesmo período. O documento é elaborado pela Mercator Ocean International, com contribuições de 125 cientistas, a partir de dados de satélite, medições diretas no mar e modelos.12
Não se trata de um ponto fora da curva: foi o nono recorde anual consecutivo, e o ritmo de aquecimento dobrou nas últimas duas décadas. Os oceanos retêm cerca de 90% do excesso de calor gerado pela queima de combustíveis fósseis, o que faz desse acúmulo um retrato mais fiel do aquecimento global do que a temperatura do ar em um ano isolado. A temperatura da superfície do mar também bateu recordes em 2023, 2024 e 2026.31
A consequência mais direta para quem vive no litoral é a elevação do nível do mar. A média global subiu 3,8 milímetros por ano entre 1999 e 2025, com margem de 0,3 milímetro, e o ritmo passou a 4,2 milímetros anuais no recorte de 2012 a 2025. No acumulado, são quase dez centímetros. Em 65% das zonas econômicas exclusivas dos pequenos Estados insulares, a alta vem acelerando desde 1999.13
A química e o gelo seguem na mesma direção. A água ficou cerca de 17% mais ácida entre 1985 e 2025, o que dificulta a formação de conchas e esqueletos de ostras, lagostas e corais. O Ártico perde em torno de 490 mil km² de gelo marinho por década desde 1979, área próxima à da Espanha, e o Mar de Barents perdeu 70% da extensão de gelo desde 1982. Em 2024, o Mediterrâneo e o Mar Negro tiveram ondas de calor marinhas recordes, algumas com mais de 30 dias e anomalias acima de 4,6°C.123
O relatório sai com um El Niño em curso que, segundo a cobertura da CNN, caminha para ser o mais intenso já registrado, o que adiciona calor a um sistema já carregado. Como leitura editorial, vale a ressalva: o material divulgado não traz recorte para a costa brasileira, e os destaques regionais são europeus, polares ou de nações insulares. O documento tampouco cria obrigações. Seus responsáveis o apresentam como base técnica para que governos transformem monitoramento contínuo em planos de adaptação, e é nesse uso, não no recorde em si, que está o efeito prático.31