O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou neste domingo (9), em reunião de gabinete, que o país rejeita o documento de 15 pontos apresentado no fim de julho pelo Conselho de Paz criado por Donald Trump para encerrar a guerra em Gaza. Segundo o premiê, o Exército israelense não fará retirada alguma do território enquanto o Hamas não passar por um desarmamento que ele classifica como genuíno, abrangendo do armamento pesado às armas leves. Na mesma fala, Netanyahu reafirmou que nenhum Estado palestino será criado enquanto ele estiver no cargo.123
O plano havia sido celebrado por Trump como um acordo histórico e previa a retirada das tropas israelenses em fases, em paralelo ao desarmamento do grupo — começando por armas pesadas, depósitos, instalações de fabricação e a rede de túneis. A administração de Gaza passaria em seguida a um comitê palestino tecnocrático supervisionado pelo Conselho de Paz, órgão dirigido pelo diplomata Nickolay Mladenov. O próprio conselho, porém, já havia alterado a sequência original, condicionando a saída israelense à conclusão total do desarmamento.123
O Hamas endossou o roteiro dias depois de escolher Khalil al-Hayya como novo líder, mas com condições espelhadas às de Israel: exige o fim dos ataques e a retirada das tropas até a linha amarela prevista no cessar-fogo de outubro, e deixa a entrega das armas pesadas para uma etapa posterior, atrelada à criação de um Estado palestino. Bassem Naim, dirigente do grupo, cobrou que Washington pressione Netanyahu a cumprir o combinado.23
A recusa tem pano de fundo doméstico: Israel vai às urnas em 27 de outubro, Netanyahu chega atrás nas pesquisas e a ala mais à direita de sua coalizão rejeita o plano — parte dela defendia até antecipar a eleição para enterrá-lo. No terreno, as forças israelenses ocupam mais da metade de Gaza e, desde o cessar-fogo de outubro, ataques quase diários deixaram ao menos 1.250 mortos e 4.120 feridos, segundo autoridades locais, num conflito que já soma mais de 73,3 mil mortos desde outubro de 2023. Sem o lado que deveria executar a retirada, o roteiro aceito pelo Hamas fica, na prática, sem caminho.123