Moradores e um engenheiro civil da região denunciaram extração ilegal de minério dentro da zona de amortecimento da Estação Ecológica do Cercadinho, unidade de conservação situada na divisa entre Belo Horizonte e Nova Lima, junto ao acesso ao Belvedere. Segundo a denúncia, o acesso ao ponto de extração se dá por uma curva onde parte da proteção metálica da via foi retirada para dar passagem a maquinário; fotos de 16 de junho e 19 de julho registram movimento atribuído à atividade, que ocorreria à noite e de madrugada. A denúncia formal foi protocolada nos órgãos estaduais de fiscalização ambiental em 10 de julho e, por se tratar de área limítrofe entre os dois municípios, também foi encaminhada ao Ministério Público Federal.1
O caso não é isolado. Em 3 de janeiro de 2025, a Polícia Militar de Meio Ambiente flagrou, na mesma zona de amortecimento do Cercadinho, próximo à antiga linha férrea do Belvedere, uma cava de cerca de 8 mil m² e seis metros de profundidade, com um trator carregando quatro caminhões de material semelhante a minério de ferro. A operação prendeu seis pessoas, entre elas um investigador da Polícia Civil de folga e um tenente-coronel da PM aposentado, flagrados observando as máquinas em funcionamento — indício de possível conivência de agentes públicos com a extração irregular na área.2
A estação, com cerca de 225 hectares entre o Belvedere e o Olhos D'Água, é reconhecida por sua função na recarga hídrica que abastece a Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ela também enfrenta pressão pela via legislativa: o Projeto de Lei 3.334/25, do ex-governador Romeu Zema, propôs cortar 26% de sua área para viabilizar obras de ligação entre a BR-356 e a MG-030, com base em acordo preliminar firmado entre MPF, MPMG, União, prefeituras de BH e Nova Lima e órgãos ambientais. Após resistência de parte da Assembleia Legislativa, a comissão de Meio Ambiente aprovou em julho um substitutivo que restringe o corte ao estritamente necessário para as obras viárias, mas o texto ainda precisa passar por dois turnos no plenário.3
Os dois episódios remetem a um mesmo ponto de fragilidade: uma unidade de conservação estratégica para o abastecimento de água da região, cercada por interesse imobiliário e viário, com fiscalização que parece reagir a denúncias de moradores mais do que antecipá-las. Até a publicação, não havia confirmação pública de que os órgãos ambientais estaduais ou o MPF tivessem aberto apuração formal sobre a denúncia de julho.123