A Estação Ecológica do Cercadinho, unidade de conservação de 224,8 hectares na divisa entre Belo Horizonte e Nova Lima, voltou a ser alvo de extração clandestina de minério. Uma denúncia formal foi protocolada em 10 de julho junto aos órgãos estaduais de fiscalização ambiental, relatando escavações que avançam sobre a mata e se aproximam perigosamente da antiga linha férrea. Segundo o registro, a atividade se concentra à noite e na madrugada, justamente para não chamar atenção, e o acesso dos veículos se dá pela curva da alça viária do Belvedere — fotografada em junho e, curiosamente, asfaltada em 19 de julho. Até aqui não há resposta oficial documentada de prefeitura, polícia ou Ministério Público sobre a nova denúncia.1
Não é episódio isolado. Em 3 de janeiro de 2025, uma operação da Polícia Militar de Meio Ambiente flagrou trator e caminhões retirando material semelhante a minério de ferro de uma cava de cerca de 8 mil metros quadrados e 6 metros de profundidade, na zona de amortecimento da mesma estação, no Belvedere. O detalhe mais grave: uma viatura da Polícia Civil acompanhava a operação clandestina, sem qualquer investigação oficial que a justificasse. Seis pessoas foram presas, entre elas um investigador que estava de férias e um tenente-coronel da reserva; por envolver recurso mineral, bem da União, o caso foi encaminhado à Polícia Federal.2
A nova denúncia chega num momento sensível para a unidade. Em 14 de julho, o plenário da Assembleia Legislativa de Minas aprovou em 1º turno o PL 3.334/25, enviado ainda pelo ex-governador Romeu Zema, que originalmente reduziria a estação em 59 hectares. O texto aprovado suprimiu o corte e manteve os 224,8 hectares, delimitando apenas uma zona específica para intervenções ligadas à preservação do antigo ramal ferroviário de Águas Claras e às obras de mobilidade da região do BH Shopping, como a ampliação da MG-030 e novas alças viárias — tudo em cumprimento a um termo de acordo preliminar firmado em 2024 com os Ministérios Públicos Federal e estadual, União, Estado, municípios e IEF. O projeto ainda precisa passar pelo 2º turno.3
Para quem vive no entorno, a sobreposição dos dois movimentos merece atenção. A estação abriga nascentes do Córrego Cercadinho, que contribuem para o abastecimento de Belo Horizonte, e faz fronteira direta com o Belvedere e com o corredor de obras viárias entre a BR-356 e a MG-030. Enquanto o desenho legal das intervenções autorizadas avança na Assembleia sob supervisão do Ministério Público, a extração clandestina opera de madrugada na mesma área — e a experiência de 2025 mostra que a fiscalização, quando chegou, encontrou o problema mais perto do Estado do que se supunha.123