A rede de esfirras que virou símbolo de fast-food barato no Brasil agora está sob proteção judicial. O juiz Jomar Juarez Amorim, da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, deferiu o processamento da recuperação judicial do Grupo Gennius, controlador do Habib's, do Ragazzo e da churrascaria Tendall Grill, com dívida declarada de R$ 265,2 milhões. A decisão foi divulgada nesta quarta (26) e nomeia a KPMG como administradora judicial. O grupo tem 60 dias para protocolar o plano de reestruturação; sem isso, o processo pode ser convertido em falência.14
O pedido abrange 178 pessoas jurídicas: 119 unidades operacionais do Habib's, 26 do Ragazzo, seis churrascarias Tendall Grill, dez sociedades de franquia e holding e outras 17 de estrutura operacional. Os fundadores Antônio Alberto Saraiva e Belchior Saraiva assinam a lista. A rede como um todo é maior, porque parte das lojas está nas mãos de franqueados: o próprio grupo fala em cerca de 300 pontos do Habib's e 200 do Ragazzo, entre unidades próprias, franqueadas e híbridas.13
A recuperação judicial não veio de surpresa. Em 1º de julho, o mesmo juiz havia concedido tutela cautelar que suspendeu por 60 dias as execuções contra o grupo, com a dívida então estimada em R$ 312,4 milhões, quase toda com bancos. A blindagem foi confirmada em segunda instância em 3 de agosto e usada para tentar acordo com credores no Cejusc, o centro de conciliação do Judiciário paulista. Em 12 de agosto, a Justiça ainda mandou o Daycoval liberar em 24 horas R$ 3,3 milhões em recebíveis de cartão que o banco retinha. A janela para fechar acordos amigáveis terminava em 1º de setembro; a mediação fracassou e a empresa optou pela via formal.23
Na petição, o Gennius atribui a crise a três fatores encadeados: o impacto prolongado da pandemia sobre o fluxo das lojas físicas, a migração do consumidor para aplicativos de delivery, que esvaziou o modelo de restaurante aberto de madrugada, e a escalada da Selic de 4% para 15%, que encareceu a rolagem das dívidas bancárias. Entre os credores listados na fase de mediação estão fornecedores como Seara, JBS/Friboi, Bunge, Oracle, Totvs e Google Brasil, além de locadores de lojas e a Bamko, que cobra R$ 4,5 milhões por brindes de campanhas promocionais.123
Para o consumidor, nada muda de imediato: a empresa afirma que as unidades funcionam normalmente, e a decisão proíbe fornecedores essenciais de interromper serviços. O ponto sensível é o ecossistema de franqueados, que depende da cadeia de suprimentos e do suporte da franqueadora. Na fase cautelar, o juiz já havia determinado que novas compras fossem pagas à vista e manteve as travas bancárias sobre recebíveis. Vale a leitura de contexto: é o terceiro grande pedido de proteção contra credores em uma semana no país, depois de Casas Bahia e Braskem, todos com o custo do crédito como pano de fundo.124