A guerra entre Estados Unidos e Irã ganhou uma dimensão nuclear explícita. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) informou que investiga relatos de um ataque na madrugada de domingo (19), por volta das 3h39 no horário local, contra o canteiro da usina de Darkhovin, na província do Khuzistão, no sudoeste iraniano. Segundo a agência, a instalação — um reator de cerca de 300 MW anunciado no fim de 2022, com conclusão prevista para por volta de 2030 — está em estágio inicial de obras e não continha material nuclear na última inspeção, o que afasta risco radiológico imediato. A Organização de Energia Atômica do Irã atribuiu aos EUA o disparo de vários projéteis contra o local e classificou a ação como contrária ao direito internacional; Washington não comentou.12

Em paralelo, análise de imagens do satélite europeu Sentinel-2 feitas em 7 e 12 de julho identificou marcas de impacto dentro do complexo de Bushehr, a única usina nuclear em operação do país, e em instalações de apoio próximas. O Comando Central americano confirmou ter atingido cerca de 90 alvos militares na abertura da campanha, em 7 e 8 de julho, mas nunca listou instalações nucleares entre eles; um vice-governador da província negou que o reator tenha sido atingido e afirmou que ele opera normalmente. O risco em Bushehr é de outra ordem: o reator contém combustível ativo, e danos a sistemas de refrigeração, energia ou contenção seriam bem mais graves do que ataques a instalações de enriquecimento.3

Os bombardeios americanos chegaram à nona noite consecutiva, e o mercado seguiu precificando o risco de interrupção no Estreito de Ormuz: o Brent chegou a subir quase 4% e opera acima de US$ 90 o barril, maior patamar desde meados de junho, com o WTI perto de US$ 84, depois de ataques a navios na região e a uma instalação petrolífera no Kuwait no fim de semana.4

Há, porém, um sinal em outra direção: o chanceler iraniano indicou que as negociações com Washington foram retomadas, ainda que sob a exigência americana de enriquecimento zero de urânio. Na leitura editorial, a entrada de sítios nucleares na geografia dos ataques — mesmo sem risco radiológico até aqui — estreita perigosamente a margem para erro de cálculo, e explica por que a AIEA voltou a pedir contenção militar no entorno de qualquer instalação nuclear.13