O governo decidiu reduzir preventivamente a geração das hidrelétricas para guardar água nos reservatórios antes dos efeitos mais severos do El Niño. A estratégia do Operador Nacional do Sistema Elétrico concentra-se nas usinas do Sul e em Itaipu, preservando potência para os momentos de maior demanda. A preocupação central está no Norte: atraso ou insuficiência das chuvas pode diminuir a produção de Belo Monte, Santo Antônio e Jirau justamente na transição entre a estação seca e o novo período úmido.12

A medida não significa falta imediata de energia. Em 25 de junho, os reservatórios do Sistema Interligado Nacional armazenavam 77,5% da capacidade útil, segundo a Agência Nacional de Águas. O planejamento busca evitar que uma condição inicialmente confortável seja consumida antes dos meses críticos. O risco combina menor disponibilidade hidrelétrica no Norte com temperaturas mais altas, que elevam o uso de refrigeração e, portanto, a carga do sistema.234

Como reforço, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico antecipou para 1º de setembro cinco contratos de reserva que somam 1.827,1 megawatts. O acréscimo ajuda a fechar parte da lacuna do leilão de capacidade de 2026, que contratou 2,2 GW diante de uma necessidade calculada em 4,2 GW. O custo para o consumidor dependerá de quais usinas substituirão a geração hídrica: térmicas são mais caras e podem pressionar as bandeiras tarifárias, embora ainda não haja nesta decisão um aumento definido na conta de luz.34

A cautela tem base climática concreta. Nota técnica de INPE, Inmet, Funceme e Censipam apontou probabilidade superior a 95% de persistência do El Niño no segundo semestre de 2026, possivelmente até o início de 2027, com intensidade forte ou muito forte. Poupar os reservatórios agora funciona como seguro operacional: troca-se parte da geração hidrelétrica barata no presente por maior margem de segurança no período em que seca e calor podem coincidir.35