A França viveu neste sábado (31) o terceiro fim de semana consecutivo de protestos nacionais contra o custo de vida e a situação das escolas. O Ministério do Interior contabilizou cerca de 320 mil pessoas nas ruas em todo o país, sendo 70 mil em Paris. A coalizão de sindicatos estudantis e juvenis que convocou os atos fala em quase 500 mil, com 200 mil só na capital. Pela contagem oficial, a adesão caiu pela segunda semana seguida: foram 550 mil em 17 de outubro e 410 mil no sábado anterior.12

Os confrontos se concentraram no fim das marchas. Em Paris, a polícia usou gás lacrimogêneo e cassetetes; em Marselha, Lyon e Toulouse houve projéteis contra agentes, e na última cidade entrou em ação canhão de água. Um policial de choque atingido por coquetel molotov em Paris teve ferimentos leves, episódio que o ministro do Interior, Laurent Nuñez, classificou como tentativa de homicídio e atribuiu a grupos de extrema esquerda. O balanço do ministério das 18h35 registrava mais de 290 detidos no país, contra apenas 27 às 14h. A NBC News somou mais de 560 prisões até a noite, número que o governo ainda não havia consolidado. Na semana anterior, foram 1.300 presos.13

O governo montou o maior esquema de segurança da série: 70 mil policiais e gendarmes em todo o território. Em Paris, a Place de la République e a região de Les Halles ficam fechadas das 23h às 6h no sábado e no domingo, e menores desacompanhados têm toque de recolher às 21h nos arredores da Champs-Élysées. Emmanuel Macron afirmou que as marchas ficariam fora dos centros comerciais para proteger o comércio, e Nuñez lembrou que cobrir o rosto em manifestação, inclusive com máscara de Halloween, é infração punível com multa de 150 euros.21

O movimento nasceu em escolas de ensino médio, com queixas sobre prédios degradados, falta de professores e um sistema de admissão universitária visto como injusto para alunos pobres. Ganhou corpo no fim de setembro, quando o governo minoritário abriu a negociação do orçamento de 2027, e passou a englobar inflação, salários e serviços públicos. Centrais sindicais, o SNES-FSU dos professores e remanescentes dos Coletes Amarelos aderiram, e Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa, marchou em Paris.24

A agenda não termina aqui. As organizações estudantis Union Étudiante e Union Syndicale Lycéenne anunciaram bloqueios de escolas e universidades na terça e na quinta, e as centrais convocaram ato nacional para 5 de novembro. O protesto também se espalhou: na Alemanha, o coletivo Gen Z regelt levou gente às ruas em mais de 30 cidades, com saques e molotovs em Frankfurt; na Itália, o governo Meloni vai manter 500 militares em Milão até o fim do ano. A leitura editorial é que a queda da adesão oficial convive com radicalização nas bordas das marchas, e o teste real do movimento será a capacidade de parar o país no dia 5.143