O governo de Javier Milei não pretende pedir desculpas pelos ataques do presidente argentino a Lula, ao governo brasileiro e ao Supremo Tribunal Federal, segundo a imprensa argentina. A sinalização fecha, por enquanto, a porta para uma descompressão rápida da crise aberta no fim de semana. O Brasil já havia chamado seu embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas — gesto diplomático de protesto que mantém a representação aberta, mas explicita a gravidade atribuída ao episódio.12

A reação também rachou a cena política argentina. O governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, principal nome da oposição peronista, procurou autoridades brasileiras e afirmou que Milei não representa o sentimento do povo argentino. Kicillof advertiu que as provocações ameaçam investimentos, exportações e empregos ligados ao relacionamento com o Brasil. O argumento tem peso concreto: o Brasil é o maior parceiro comercial da Argentina, e a disputa verbal ocorre entre dois países com cadeias produtivas profundamente conectadas.23

Em Brasília, a resposta deixou o terreno estritamente diplomático e entrou na disputa de insultos. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou Milei de palhaço e comparou indicadores das duas economias, afirmando que a situação brasileira é melhor. A fala amplia o custo político do confronto: depois de o governo defender civilidade entre países, um integrante do primeiro escalão adotou o mesmo registro agressivo que criticava no presidente argentino.45

O episódio começou quando Milei participou, em São Paulo, da convenção que lançou Flávio Biroliro à Presidência e atacou Lula, ministros do STF e a esquerda brasileira. A recusa argentina em se retratar transforma uma provocação de palanque em impasse de governo. Ainda não há anúncio de ruptura diplomática nem de medidas comerciais, mas o acúmulo de respostas públicas reduz o espaço para uma saída discreta e acrescenta instabilidade a uma relação estratégica que deveria sobreviver às afinidades eleitorais de seus presidentes.123