A Estação Ecológica do Cercadinho, unidade de conservação encravada na divisa entre Belo Horizonte e Nova Lima, ao lado da alça do Trevo do Belvedere, é alvo de extração ilegal de minério, segundo denúncia publicada pelo Jornal Belvedere em 27 de julho. A operação funciona à noite e de madrugada, justamente para não chamar atenção, e o acesso de máquinas e caminhões se dá pela curva da chamada alcinha, onde um trecho do guard-rail da via foi removido. O caso foi formalizado em 10 de julho junto aos órgãos estaduais de fiscalização ambiental e também ao Ministério Público Federal, já que a área atingida pertence à União.1

O estrago descrito não é trivial: uma grande área já foi escavada, com supressão de vegetação e risco ao aquífero. Engenheiro civil que visitou o local relatou que a cava avança na direção da linha férrea, em terrenos recentemente repassados pela União a Belo Horizonte e Nova Lima, e pode comprometer a estabilidade da plataforma onde ficam trilhos, dormentes e lastro caso continue crescendo.1

Também não é a primeira vez. Em 3 de janeiro de 2025, uma operação da Polícia Militar de Meio Ambiente flagrou no mesmo entorno, na zona de amortecimento da estação, uma cava a céu aberto de cerca de 8 mil metros quadrados e seis metros de profundidade — com uma viatura da Polícia Civil estacionada a poucos metros das máquinas. Um tenente-coronel da reserva, um investigador da Polícia Civil e quatro operários foram presos na ocasião, e a apuração ficou com a Polícia Federal, porque recursos minerais são bens da União.2

A pressão sobre a unidade também corre pela via institucional. Criada em 2006, com cerca de 225 hectares, a estação protege nascentes do Córrego Cercadinho usadas na captação de água de Belo Horizonte — e já foi palco de reintegração de posse em 2019 por ocupação irregular. Em 14 de julho, a Assembleia Legislativa aprovou em primeiro turno o PL 3.334/25, que originalmente retiraria 59 hectares da unidade; o substitutivo da Comissão de Meio Ambiente manteve os 224,8 hectares e restringiu as intervenções autorizadas a obras de proteção do ramal ferroviário de Águas Claras e a soluções de mobilidade, como a ampliação da MG-030. O texto ainda passa por segundo turno.34

A leitura editorial é incômoda: enquanto o desenho legal do Cercadinho é disputado no plenário, o fato no chão é que a fiscalização não tem conseguido interromper um garimpo recorrente num dos últimos grandes remanescentes verdes entre o Belvedere e o Vale do Sereno. Por ora, o freio depende de denúncia de morador e de operação pontual — um arranjo que, pelo histórico recente, quem extrai o minério já aprendeu a contornar.12