A premissa de que o Brasil prejudica comercialmente os Estados Unidos esbarra nos números do próprio governo americano. Em 2025, os EUA exportaram US$ 54,3 bilhões em bens ao mercado brasileiro e importaram US$ 39,9 bilhões, encerrando o ano com superávit de US$ 14,4 bilhões. O resultado foi mais que o dobro dos US$ 6,7 bilhões registrados em 2024 e o maior da série bilateral. Não se trata, portanto, de uma relação na qual o Brasil venda sistematicamente mais do que compra: há décadas, o fluxo tem produzido saldo favorável a Washington na maior parte dos anos.123
A vantagem americana continuou em 2026. De janeiro a maio, último intervalo disponível na tabela do Census Bureau, as exportações dos EUA ao Brasil somaram US$ 21,7 bilhões, contra importações de US$ 13,9 bilhões. O saldo acumulado chegou a US$ 7,8 bilhões em apenas cinco meses. O escritório do representante comercial dos Estados Unidos também informa que, além dos bens, o país obteve superávit de US$ 26,1 bilhões em serviços com o Brasil em 2025, impulsionado por vendas como tecnologia, licenciamento, finanças e outros serviços empresariais.23
Esses dados não eliminam divergências setoriais nem impedem Washington de questionar políticas brasileiras específicas. Mostram, porém, que o tarifaço não pode ser explicado por um déficit bilateral americano: esse déficit não existe. As cobranças recentes foram justificadas por investigações sobre práticas consideradas desleais e, em outra frente, pela alegação de combate ao trabalho forçado. Ao atingir um parceiro que já absorve mais produtos e serviços americanos do que vende aos EUA, a política tarifária também encarece insumos, reorganiza cadeias e pode reduzir o próprio mercado dos exportadores americanos. O saldo comercial não encerra a discussão, mas retira dela o argumento mais simples — e mais repetido — de reciprocidade contra uma suposta vantagem brasileira.123