Um repositório aberto na internet manteve por cerca de 11 meses credenciais e documentação interna do Smart Sampa, o sistema de videomonitoramento da Prefeitura de São Paulo. A apuração, publicada nesta terça-feira (20) pelo UOL, mostra que o material permitia acessar mais de 58 mil câmeras integradas à plataforma, incluindo equipamentos instalados em creches, escolas, hospitais, unidades de atendimento a dependentes químicos e bases da Guarda Civil Metropolitana.134

O conteúdo exposto incluía 181 combinações de usuário e senha de operadores autorizados, registros de mais de 6 mil agentes de segurança e instruções técnicas que permitiam recriar a interface do sistema em computadores e celulares. Com esses dados, os repórteres conseguiram ver imagens de ruas e consultar nomes, CPFs, placas de veículos e boletins de ocorrência, além de acompanhar o deslocamento de viaturas. A plataforma da Sentinelx, empresa responsável pela tecnologia, aceitava o login sem verificação em duas etapas, e um especialista ouvido pela reportagem apontou interfaces que recebiam registros de reconhecimento facial e leitura de placas sem checar adequadamente a origem do envio.134

A prefeitura reconhece que houve divulgação ilegal de informações, mas rejeita a tese de falha estrutural. Em nota, a gestão Ricardo Nunes atribui o episódio a um servidor, já identificado e afastado, cuja conduta é apurada pela Corregedoria da GCM. A administração sustenta que o repositório não continha senhas de acesso e que não houve uso indevido da plataforma. Ainda assim, depois dos questionamentos, retirou o material do ar e passou a exigir senhas exclusivas, autenticação em dois fatores e validação por SMS para criação de novas senhas. A nota também cita fiscalização do Tribunal de Contas do Município e relatórios semestrais ao Ministério Público.234

O caso expõe uma contradição evidente: se a plataforma não tinha fragilidade, não haveria motivo para endurecer a autenticação logo após o alerta. Há ainda divergência numérica entre a reportagem, que fala em mais de 6 mil agentes afetados, e a nota oficial, que menciona mais de 7.500. A dimensão do risco é difícil de medir porque a prefeitura admite não ter acesso ao código-fonte, aos modelos de inteligência artificial nem às bases de treinamento do reconhecimento facial, que ficam sob controle da Sentinelx, sem auditoria independente.34

O Smart Sampa nasceu de licitação de 2023 vencida pelo consórcio Smart City, com contrato de R$ 588 milhões por cinco anos; a Sentinelx entrou por aditivo em dezembro de 2025, no lugar da Camerite. Entre novembro de 2024 e maio de 2026, 268 pessoas foram levadas a delegacias por alertas do sistema e liberadas em seguida, a maior parte por mandados desatualizados. O episódio ganha peso nacional porque o programa serve de modelo declarado para propostas de expansão a outras cidades e ao país.43