Os brasileiros gastaram US$ 12,61 bilhões em viagens internacionais no primeiro semestre de 2026, segundo as estatísticas do setor externo divulgadas pelo Banco Central nesta terça-feira (28). O valor supera em 22,5% os US$ 10,3 bilhões do mesmo período de 2025 e é o maior já registrado para um primeiro semestre em toda a série histórica — em termos nominais, ou seja, sem descontar a inflação acumulada desde o início da medição.12
Somente em junho, as despesas chegaram a US$ 2,2 bilhões, enquanto os visitantes estrangeiros deixaram US$ 800 milhões no Brasil no mês. A proporção ilustra o desequilíbrio estrutural da conta de viagens: o turista brasileiro gasta lá fora quase o triplo do que o estrangeiro gasta por aqui.1
O motor do recorde é o câmbio. O dólar fechou a segunda-feira (27) cotado a R$ 5,11 e acumula desvalorização de 6,87% frente ao real em 2026, o que barateou passagens, hospedagem, alimentação e compras para quem sai do país. Mesmo com a moeda americana mais fraca, a saída de dólares pela conta de turismo cresceu — sinal de demanda reprimida encontrando preço favorável.12
O apetite por viagens, porém, não piorou o quadro geral das contas externas. O déficit em transações correntes do semestre ficou em US$ 27,47 bilhões, recuo de 16,34% ante os US$ 32,85 bilhões de um ano antes, e o investimento direto no país somou US$ 47 bilhões — bem acima dos US$ 35,4 bilhões do primeiro semestre de 2025 e mais do que suficiente para financiar o rombo.2
A leitura é dupla. Para o consumidor, o real valorizado devolve poder de compra internacional e alimenta o turismo emissivo; para o balanço de pagamentos, o gasto recorde é um item a mais numa conta de serviços cronicamente deficitária, hoje compensada pelo fluxo forte de capital produtivo. A sustentabilidade do padrão depende de câmbio e investimento estrangeiro seguirem cooperando — duas variáveis que um 2026 eleitoral não garante.12