A fabricante franco-italiana ATR começou a responder ao relatório final do Cenipa sobre a queda do voo 2283 da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP) em 9 de agosto de 2024. A empresa atualizou o manual de manutenção — incluindo os procedimentos de instalação do Synchro Transmitter, sensor que indica a posição do profundor esquerdo — e implementou uma nova versão do APM, o monitor de desempenho da aeronave, que passa a ter vigilância contínua e a manter avisos no painel por pelo menos 60 segundos antes que desapareçam.12
O Cenipa também endereçou recomendações à EASA, a agência europeia responsável pela certificação dos ATRs. O órgão brasileiro quer que o alerta de aumentar a velocidade suba da categoria de cautela para a de advertência, a mais grave; que o procedimento ligado ao aviso de desempenho degradado passe a exigir resposta imediata da tripulação; que a lógica do modo que limita a inclinação lateral da aeronave seja reavaliada para voo em condições de gelo; e que os gravadores de dados registrem falhas no degelo das asas e a ativação da proteção automática contra estol.23
Os dados do relatório detalham o colapso dos minutos finais. O painel emitiu uma sequência de alertas — entre eles oito mensagens de velocidade de cruzeiro baixa, além dos avisos de desempenho degradado e de aumento de velocidade — sem que a tripulação recuperasse a margem segura a tempo. Após perder a sustentação, o ATR 72-500 entrou em parafuso chato e assim permaneceu por 68 segundos, completando cinco rotações e descendo a cerca de 14 mil pés por minuto até o impacto em um condomínio de Vinhedo.34
O documento, apresentado na quinta-feira (23), concluiu que o acidente resultou de uma sucessão de falhas iniciada antes da decolagem: o avião partiu de Cascavel (PR) com o sistema de degelo inoperante, em desacordo com a lista de equipamentos mínimos, rumo a uma rota com previsão de gelo severo — quadro agravado por fragilidades operacionais da Voepass e por supervisão deficiente da Anac.3
A leitura editorial: as mudanças já adotadas pela fabricante mostram que a investigação brasileira produz efeitos práticos na frota mundial de ATRs, e não apenas recomendações no papel. A parte mais estrutural, porém, segue pendente — a reclassificação dos alertas e eventuais mudanças de certificação dependem de decisão da agência europeia.12