O Itamaraty confirmou na noite desta terça-feira (4) o rebaixamento das relações diplomáticas com a Argentina ao nível de encarregado de negócios. O embaixador Julio Glinternick Bitelli, chamado de volta a Brasília em 26 de julho, não retornará a Buenos Aires enquanto o presidente Javier Milei mantiver os ataques ao governo brasileiro. As relações não foram rompidas e a embaixada segue aberta, mas o posto deixa de ser ocupado no escalão máximo — um degrau abaixo sem paralelo na história recente dos dois vizinhos.123
O estopim foi uma entrevista de Milei ao canal argentino LN+ em que ele voltou a chamar Lula de ladrão, corrupto e ex-presidiário, além de mirar um ministro do Supremo Tribunal Federal. Foi o mais recente de uma série de insultos em poucos dias. A sequência havia começado quando o argentino discursou ao lado de Flávio Biroliro no lançamento da candidatura presidencial do senador — episódio que já tinha motivado a convocação de Bitelli para consultas no fim de julho.345
O embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, recebeu nota de protesto do Itamaraty e foi informado da decisão. Do outro lado, a Casa Rosada tratou o atrito como coisa menor: o porta-voz presidencial Adrián Ravier atribuiu a tensão a diferenças ideológicas e políticas entre os dois governos, sem sinalizar qualquer resposta equivalente.345
O gesto pesa porque atinge o principal sócio do Brasil no Mercosul e congela um canal político que já operava no mínimo: Lula e Milei jamais realizaram uma reunião bilateral oficial desde que o argentino assumiu a presidência. No cotidiano, comércio e fronteira seguem funcionando normalmente; o que se perde é a interlocução de alto nível, agora condicionada a um recuo retórico que Milei, em ritmo de palanque ao lado da oposição brasileira, não dá sinais de fazer.45