As antigas minas Velha e Grande, onde a AngloGold Ashanti extraiu ouro entre 1834 e 2003, estão no centro do maior redesenho urbano de Nova Lima em décadas. O projeto Nova Vila, que promete converter 260 mil m² de área minerada em um bairro de uso misto colado ao Centro, voltou nesta semana à vitrine da imprensa local — mas o que importa é o estágio em que ele se encontra: aprovado pela Câmara Municipal em maio, o plano tramita agora no licenciamento ambiental e urbanístico, etapa que vai definir os números que até hoje não vieram a público.124

A iniciativa é tocada em parceria pela mineradora, pela Prefeitura de Nova Lima e pela construtora Concreto. O desenho divulgado prevê moradias, comércio, centro cultural, mercado distrital e centro esportivo, além de uma avenida de 2 km em pista dupla ligando a rodoviária à Praça do Mineiro, acompanhada de ciclovia. Cerca de 25% da área ficaria reservada à preservação ambiental, com corredores ecológicos em trechos de Mata Atlântica, e 19,6 mil m² de estruturas históricas da mineração seriam revitalizados. As projeções dos empreendedores falam em aproximadamente 950 empregos temporários durante as obras e mais de 260 postos permanentes nos três primeiros anos.12

O aval legislativo veio em 6 de maio, quando a Câmara aprovou o Projeto de Lei 2.640/2025, que autoriza a Operação Urbana Consorciada da Nova Vila, por 12 votos a 1, com uma abstenção. A votação, porém, foi precedida de atrito: o líder do governo pediu a dispensa da análise pelas comissões, e o autor do único voto contrário, o vereador Wesley de Jesus (Republicanos), apontou que o texto chegou ao plenário sem estudos de viabilidade técnica anexados.34

Os questionamentos não se limitam ao plenário. Moradores do entorno, sobretudo do bairro Boa Vista, cobram contrapartidas diretas às comunidades afetadas, e há dúvidas sobre a capacidade da infraestrutura urbana — transporte, segurança e serviços públicos — de absorver o adensamento. É no licenciamento que deverão ser fixados o impacto real no trânsito, os parâmetros construtivos e o número de moradores e edificações, dados que até aqui não foram dimensionados publicamente.4

Antes da Câmara, o projeto já havia recebido manifestações favoráveis de órgãos como Feam, ANM e Iphan. A leitura editorial: a peça que circula agora no noticiário local tem tom de vitrine da parceria — inclusive com a promessa de corredores viários até a MG-030 e até Sabará —, mas o fato que interessa a quem vive na cidade é que a fase decisiva, a que transforma renderização em regra, está em curso sem que os números centrais do adensamento tenham sido apresentados.124